SOCORRO DIOCESANO
[Este é um extracto de uma série de artigos em português sobre Macau durante a Segunda Guerra Mundial, escritos aparentemente pelo P. Manuel Teixeira no início dos anos 80.]
Durante a Guerra do Pacífico, a caridade arrancou do seu seio, como o pelicano, todo um manancial de bem-fazer como nunca se vira. A população, que era de 150.000 pessoas em Dezembro de 1941, subiu vertiginosamente, logo nos primeiros meses da guerra (Fevereiro e Março de 1942), para 450.000. Macau dependia economicamente de Hong Kong. Com a queda desta colónia britânica, a nossa cidade caiu no vácuo.
Acresce que durante os primeiros anos da Guerra Sino-Japonesa (1937-1941), a Cruz Vermelha Americana e a Associação Geral Chinesa de Hong Kong, além do auxílio pecuniário, mandavam carregamentos de arroz, aveia, canja, trigo, leite condensado, etc. Este auxílio era tão largo que a Diocese de Macau não se limitava a atender os mendigos desta cidade, mas procurava salvar as vidas dos pobres dos arredores, sobretudo do distrito de Chong-San. Em Seak-Kei, capital desse distrito, eram sustentados diariamente 17.000 famintos.
Em Macau, a caridade católica multiplicava as obras para poder atingir o maior número de pobres e doentes. Todos, era impossível. As Conferências Vicentinas, organizadas nas quatro freguesias – Sé, S. Lourenço, Sto. António e S. Lázaro – não tinham mãos a medir: visitavam semanalmente as famílias adoptadas, às quais distribuíam géneros e dinheiro. Recebiam para isto um subsídio do Governo.
A Acção Católica Chinesa Feminina, sob a direcção de D. Maria Luísa Choi, tratava dos corpos e das almas: organizou uma cozinha económica, vendendo a canja a $0.15, perdendo 6 avos em cada malga. Calcule-se as enormes despesas que tinha de suportar, sabendo-se que eram milhares das pessoas que buscavam esse precioso e nutritivo alimento. Além disso, as senhoras visitavam diariamente o Hospital “Kiang Wu”, baptizando os moribundos e catequizando os outros doentes.
Maria Luísa Choi foi condecorada pelo Governo Português pelos seus serviços como professora, mas o seu apostolado social, espiritual e moral ainda aguarda uma recompensa que, naturalmente, só no Céu receberá. Seu pai, Joel José Choi (Anok), era presidente da Associação de Beneficência “Tong Sin Tong” desde 1924 e da Associação Comercial Chinesa e do Hospital “Kiang Wu” desde 1931. A acção benfazeja que exerceu durante todos esses anos, especialmente durante a guerra, foi tal que o seu busto se via em lugar de honra em várias associações chinesas de beneficência.
Se hoje o fôssemos procurar, onde o acharíamos? O mesmo se diga de Pedro José Lobo, que tinha o seu retrato em numerosos conventos, orfanatos, escolas e instituições de caridade. Quem o conserva ainda?
Outra instituição, que vem auxiliando os pobres desde 1903, é o Pão dos Pobres de Sto. António, durante a guerra distribuía mensalmente 12 sacos de arroz.
A Obra de Socorro da Diocese de Macau mantinha duas cozinhas económicas, uma no Hospital “Kiang Wu”, outra no Pagode da Barra. No Orfanato Salesiano dava-se uma refeição diária às crianças. Eram também distribuídas rações diárias à porta da Cerca do Seminário.
No prédio nº 6-8 da Rua de S. José abriu-se um asilo para as crianças abandonadas, a cargo das religiosas americanas de Maryknoll aqui refugiadas, ficando director do mesmo o P. Mário Acquistapace. No Orfanato da Imaculada Conceição estavam recolhidas 600 órfãs.
Em 31-5-1942, o P. Monteiro fundou a obra “Florinhas da Rua”, que a confiou às Irmãs de N. Sra. dos Anjos. O seu objectivo era salvar da miséria e, consequentemente, da desgraça as meninas abandonadas e órfãs de pai e mãe, dos 10 aos 20 anos de idade. Ficou instalada na Casa de Protecção da Missão de Fátima, no Bairro Tamagnini Barbosa, entrando logo de início 17 raparigas. A princípio, em vez de mantas, só tinham sacos para se aquecerem na cama durante o inverno. As alunas do Colégio de Sta. Rosa de Lima organizaram uma rifa e, com o seu produto, compraram 45 “mintóis” para essas raparigas. O P. Monteiro fundou ainda a Casa de Protecção destinada às meninas europeias e a Casa de Regeneração para as Madalenas arrependidas.
Além destas obras, todos os conventos e casas religiosas exerciam uma intensa actividade no campo caritativo. Merece especial menção a Casa de Beneficência das Irmãs Canossianas, que desde 1874 tem estado aberta a todas as desgraças e infortúnios. Além da Diocese, a Sta. Casa da Misericórdia, a “Tong Sin Tong” e o Hospital “Kiang Wu” desentranharam-se em obras de assistência nada inferiores às da Missão.
DIOCESAN WELFARE
[This is an excerpt from a series of articles in Portuguese about Macau during the Second World War, apparently written by Father Manuel Teixeira in the early 1980s.]
During the Pacific War, charity, like a pelican, poured forth from its bosom a whole wellspring of good deeds such as had never been seen before. The population, which was 150,000 people in December 1941, rose precipitously, in the first months of the war (February and March 1942), to 450,000. Macau was economically dependent on Hong Kong. With the fall of that British colony, our city fell into a vacuum.
During the first years of the Sino-Japanese War (1937-1941), the American Red Cross and the Hong Kong Chinese General Association, in addition to financial aid, sent shipments of rice, oats, chicken soup, wheat, condensed milk, etc. This aid was so extensive that the Diocese of Macau did not limit itself to assisting the beggars of this city, but sought to save the lives of the poor in the surrounding areas, especially in the Chong-Sán district. In Seak-Kei, the hub of that district, 17,000 hungry people were fed daily.
In Macau, Catholic charity multiplied its works to reach the greatest number of poor and sick people. It was impossible to save everyone. The Vincentian Conferences, organised in the four parishes – Sé, S. Lourenço, Sto. António and S. Lázaro – were overwhelmed: they visited the adopted families weekly, distributing goods and money to them. They received a subsidy from the Government for this.
The Chinese Catholic Women’s Action, under the direction of Dona Maria Luísa Choi, cared for the bodies and souls: it organized a charity kitchen, selling chicken soup for $0.15, losing 6 cents on each bowl. Consider the enormous expenses she had to bear, knowing that thousands of people sought this precious and nutritious food. Furthermore, the ladies visited the “Kiang Wu” Hospital daily, baptising the dying and catechising the other patients.
D. Maria Luísa Choi was decorated by the Portuguese Government for her services as a teacher, but her social, spiritual, and moral apostolate still awaits a reward that, naturally, she will only receive in heaven. Her father, Joel José Choi (Anok), was president of the “Tong Sin Tong” Charity Association since 1924 and of the Chinese Commercial Association and the “K’ang Wu” Hospital since 1931. The humanitarian work he carried out during all those years, especially during the war, was such that his bust was seen in a place of honour in several Chinese Charity Associations.
If we were to look for it today, where would we find it? The same can be asked about Pedro José Lobo, who had his portrait in numerous convents, orphanages, schools, and charitable institutions. Who still keeps it?
Another institution, which has been helping the poor since 1903, is the Bread of the Poor of St. António, during the war, distributed 12 sacks of rice monthly. The Diocese of Macau’s Relief Work maintained two soup kitchens, one at the “Kiang Wu” Hospital, the other at the Barra Pagoda. At the Salesian Orphanage, a daily meal was given to the children. Daily rations were also distributed near the Seminary grounds.
In building number 6-8 on Rua do S, José, an asylum was opened for abandoned children, run by the American Maryknoll nuns who had taken refuge there, with Father Mário Acquistapace as its director. The Immaculate Conception Orphanage took in 600 orphans.
On May 31, 1942, Father Monteiro founded the “Florinhas da Rua” (Little Flowers of the Street) project, which he entrusted to the Sisters of Our Lady of the Angels. Its objective was to save abandoned and orphaned girls, aged 10 to 20, from misery and consequently from disgrace. It was installed in the Protection House of the Fatima Mission, in the Tamagnini Barbosa neighborhood, and 17 girls entered immediately. At first, instead of blankets, they only had sacks to keep warm in bed during the winter. The students of the Santa Rita de Lima School organized a raffle and with the proceeds bought 45 “mintóis” (small blankets) for these girls. Father Monteiro also founded the Protection House for European girls and the Regeneration House for repentant Magdalenes.
In addition to these works, all the Convents and Religious Houses carried out intense activity in the charitable field. Special mention should be made of the Beneficent House of the Canossian Sisters, which since 1874 has been open to all misfortunes and calamities. Besides the Diocese, the Santa Casa da Misericórdia, the “Tong Sin Tong” and the “Kiang Wu” Hospital engaged in charitable works no less significant than those of the Mission.